O Observador

Às vezes me pego lendo esses anúncios de desaparecidos no Jornal, na conta de energia e nas embalagens de leite.  Desde criança essas fotos me intrigam, é assustador imaginar como alguém pode simplesmente desaparecer do mapa e não deixar vestígios. Por Deus,  deve haver um “por que” ou “como”, eu preciso de uma explicação.

 

 Era uma manhã nublada de terça feira, o celular tocou sobre o criado mudo. Era Jesse: 

 

A essa hora! O que será?

 

– Alô

– Harry, há quanto tempo, como vai?

Oi Jesse, ta tudo bem sim… – hesitei em concluir – … Na medida do possível.

– Pois é, já faz um ano não é? Como o tempo passa rápido!

– Sim, mas ainda da pra ouvir o som dela tocando piano as vezes, é complicado.

– Também sinto a falta dela Harry, muito mesmo.

– Faz tempo que você não liga amigo,  aconteceu alguma coisa?

– Não. – ele pigarreou, parecendo meio sem jeito de me contar algo – Na verdade… sim,  o delegado me telefonou ontem me dizendo que tinha novidades sobre Kayla…

– Como é que é? – o interrompi com o coração quase explodindo de emoção.

– Uma senhora encontrou  um pequeno  caderno na estrada que vai para Providence, me parece ser uma espécie de diário de Kayla, a senhora disse que reconheceu o nome devido aos anúncios que você espalhou.

– Minha nossa eu me lembro. Era o pequeno diário dela, está com você?

– Não, não, os investigadores confiscaram, disseram que pode ajudar a resolver o caso,  mas o delegado me mandou copias por e-mail.

– Nas ultimas semanas que ela esteve aqui, eu lembro que passava horas trancada no quarto escrevendo. – disse-lhe com a voz embargada.

– Harry eu sei que isso é particular, mas eu tomei a liberdade de ler algumas páginas. – Fez uma pausa, parecendo me preparar pra ouvir algo mais importante – O  que quer que tenha acontecido com Kayla eu acho que ela já estava prevendo.

– Como assim Jesse? – Indaguei assustado.

– Kayla era uma jovem inteligente e… enfim, acho melhor você mesmo ler e tirar suas conclusões, lhe enviei as cópias por e-mail.

– Você esta me assustando Jesse, o que aconteceu?

– Não sei explicar cara, apenas leia. De qualquer forma, foi bom falar com você  se cuida aí. – Desligou, antes que eu pudesse me despedir.

 

Levantei-me o mais rápido que pude e abri minha caixa de entrada, no arquivo recebido havia dezenas de imagens escaneadas das folhas amareladas de um pequeno caderno de capa dura, era mesmo a caligrafia de Kayla, letras polidas  e extremamente arredondadas como ela costumava fazer:

 

 

Diario de Kayla Anderson

 tarde de 13 de outubro de 2004

 Mais um dia comum no colégio, eu e as meninas passamos o dia todo nos escondendo do Sr. Ivanovic  e deixamos os trabalhos de lado,  o fim do ano está chegando e eu já dou mais a minima para as tarefas. O baile esta chegando e eu queria muito que ELE me convidasse. Durante o intervalo fiquei sentada na arquibancada assistindo-o treinar com time de futebol, ele não sabe o quanto fica lindo todo suado e com o uniforme vermelho do colégio.

Não concordo com essa tradição de os meninos é que devem tomar a atitude, por que nós mulheres não podemos ir la e falar o que pensamos? Será que um dia isso vai ser moda, nós vamos os convidar? Será?  Risos.

 

Noite de 16 de Outubro de 2004

São quase uma da manhã e acabo de chegar em casa, tive uma discussão com meu pai por causa da hora, não aguento ser tratada mais como uma criança, pra completar ainda está uma chuva tremenda la fora, estou toda ensopada.

Saí da aula de piano e resolvi ir a casa de Martha, ela é minha melhor amiga se é que posso considerar assim, ficamos horas falando sobre ELE e vendo suas fotos no vlog… ai ,  ele é tão… Sei lá, perfeito!

As vezes reparo ele me encarando, acho que ele gosta de mim também, quem sabe um dia desses não me aproximo?

 

 Noite de 18 de outubro de 2004

As chuvas de verão estão cada vez mais torrenciais, tive que voltar sozinha da aula de piano pois as meninas não quiseram sair de casa nesse temporal. Ao chegar próximo de casa tive a estranha sensação de estar sendo seguida, estava escuro, não havia ninguém na rua mas… sei lá, me dá calafrios só de lembrar.

 

Tarde de 26 de outubro de 2004

Já faz quase uma semana que eu e ELE estamos conversando, ai me sinto tão bem, tão leve… hoje matamos aula do lado de fora do colégio a chuva deu uma pequena trégua e fomos lá na fonte do Lincoln Park, tiramos até uma foto juntos, nem to acreditando, quero logo que chegue amanha, nunca gostei tanto de ir a escola… Risos.

PS: Mostrei a foto pra Martha e a invejosa disse que tem algo estranho atrás de nós dois, parece que tem alguém bem lá no fundo, meio escondido por detrás dos degraus da fonte. Quando ela falou eu não tinha reparado, estava um pouco escuro mais olhando bem… pode ser talvez algum aluno curioso… sei lá, o que importa é a nossa imagem “eternizada no tempo” (bléééh)

 

Manhã de 28 de outubro de 2004

Tive um sonho estranho essa noite, sonhei que havia alguém do lado de fora da nossa casa, que ficava me observando pela janela, não dava pra distinguir seu rosto mas eu sabia que ele estava la no meio da escuridão da noite, escutei sua voz me chamando, sussurrando, era quase imperceptível, mas estava lá. O mais estranho de tudo é que agora de manhã quando acordei, a janela estava aberta, totalmente escancarada. Chamei meu pai e mostrei mas ele disse que não era nada , aquela velha história “pode ter sido o vento”.  Enquanto isso, a chuva continua…

 

Tarde de 02 de novembro de 2004

Tenho me sentido muito mal ultimamente, meu apetite aumentou bastante, porém me sinto muito fraca, ELE me chamou para sair hoje a noite, mas, como estou muito pálida  achei melhor recusar o convite. Que pena!

Aquela estranha sensação de estar sendo seguida voltou, fui ao banheiro do colégio agora a pouco e senti um vulto logo atrás de mim passando pelo espelho, conferi todos os toalhetes, porém não havia ninguém. Estou ficando preocupada.

 

 

Madrugada de 03 de novembro de 2004

Ah meu Deus, acabo de ter outro pesadelo, mas o que eu vi… o que era aquilo? era real?

Eu não sei explicar, estava sonhando que alguém me observava enquanto dormia, dava pra ouvir uma respiração ofegante bem do meu lado, era tão real… Quando abri os olhos de fato havia alguém lá, no escuro, era alguém bem pequeno, pouco maior do que uma criança de 7 ou 8 anos, estava parado próximo a janela do meu quarto me encarando com enormes olhos brancos e uma pele negra feito piche, não tinha cabelos e seu rosto tinha enormes pústulas abertas, era assustador. Gritei o mais alto que pude pelo meu pai, mas o ser saiu pela janela em apenas um salto  e se misturou a tempestade… Estou com muito medo… O que era aquilo?

Meu pai não acreditou no que eu falei, disse que era apenas um pesadelo, vou passar a noite com ele agora, não sei se consigo mais dormir.

 

Tarde de 4 de novembro de 2004

Não quis ir a escola hoje, não paro de pensar naquilo que vi essa madrugada e de quebra ainda não estou me sentindo bem, me sinto cada vez mais fraca. A Martha me ligou mas não tive coragem de contar pra ela sobre aquilo, ela não iria acreditar e iria me achar uma maluca.

Andei  pesquisando na internet sobre aquela coisa de olhos arregalados, eu vi relatos de outras pessoas que também o viram e descreveram as mesmas características: criatura pequena, de pele negra e olhos arregalados. Eles a chamam de “O Observador” . Ninguém sabe explicar ao certo o que ele é, ou de onde vem, mas se sabe que ele sempre surge em dias de chuva e sempre fica nos vigiando. Ele é chamado assim pois nunca houve relato de algum ataque a algum ser humano, ele apenas olha.. observa.  Algumas teorias dizem que ele é um ser que quer muito ser igual a nós humanos e que fica nos observando para mudar sua forma e se assemelhar nossa aparência, isso explicaria as pústulas e deformações no seu rosto. Algumas teorias dizem que é apenas um fantasma  atormentado, ou um demônio.

 

 

Madrugada de 5 de novembro de 2004

Ele está aqui no meu quarto novamente, posso ouvir sua respiração mesmo com o barulho da chuva. Implorei a ele que fosse embora e me deixasse em paz, mas ele continuou parado me observando aos pés da cama, pude sentir ele me chamando com os olhos, querendo me levar la pra fora, é uma sensação estranha, estou desesperada, a única coisa que eu posso fazer é escrever e  ficar agarrada ao meu pequeno crucifixo, pedindo a Deus que ele me deixe em paz…mas…ele continua ali parado, quase não é possível ver seu rosto misturado as sombras. E a chuva continua…

 

Manhã de 6 de novembro de 2004

A chuva parou e deu lugar ao uma vasta neblina, estou muito fraca e mal consigo caminhar,sinto grama sob  meus pés.. não sei exatamente onde estou mas sei que estou longe de casa, ele está comigo, continua a me observar com seus enormes olhos brancos, ele esta me levando pra longe,  deixo aqui meus relatos como um pedido de socorro caso alguém um dia encontre… 

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Sobre Cabeção

Escritor e musico não praticante, amante de sexo, video game, bebidas e qualquer outra coisa que envolva orgasmos múltiplos. Ver todos os artigos de Cabeção

2 respostas para “O Observador

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