bravo, breve e brando

Ela veio  nua e apenas com o lençol enrolado no corpo, a luz das 6:15 da manhã a guiava pelo azulejo branco do quarto, pés  descalços junto ao barulho de chuva na metrópole cinza que se  escorria la embaixo do prédio, dava pra se ouvir os vizinhos  e ver as roupas simples no varal da janela do prédio a frente.
” Nunca se sabe quem você realmente é, você diz uma coisa e escreve outra” -Disse ela em tons de cinza e vodka, enquanto me olhava de baixo pra cima com a boca cheia do meu pudor
“Não leve a serio meu lado Bukowski, todos tem um e ele não faz questão de ser simpático” retruquei  enquanto me trocava. E me despi novamente, e denovo e denovo,  fizemos como sempre a parte de ignorar a conversa e os vestidos colados e o sabor de batom rosê e cheiro de cigarros arrastados por salto alto da noite anterior e aderimos ao nosso aroma e gosto de carne e suor de seu colchão estendido no chão.

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O dom do bourbon

e quando me pegar falando ao telefone

reclamando do tédio e da monotonia

venha até meu ombro, sorrateira

me penteie com os dedos e seja minha fogueira

faremos da tv a nossa lareira,

perto de todos clichês

de filmes e de contos eróticos daquele marquês


e quando a rotina nos chamar lá fora

ao alto dos prédios e de toda correria

me lace com sua pele e mate minha sede com o teu suor

teu sabor, teu pudor,  meu amor

vou me alimentar da carne e do batom

E quando eles gritarem debaixo das trincheiras

O “abrir fogo “ sairá nos noticiários

eles se matam ao ar livre, fazendo guerras de tantas maneiras

e a gente se esconde sob a luz da janela, explorando um ao outro

ateando fogo em nossos corpos  sem deixar queimar

me disseram que isso é amar

me amarre com sua libido e mate minha sede com o teu suor

teu sabor,teu amor, sem pudor

vou me alimentar da carne e do batom

http://www.youtube.com/watch?v=fW8I-s-cDOA


um pedaço de carne e ossos nesse mundo infestado de leões famintos

Hoje,Deus entrou pela porta dos fundos de meu coração ensanguentado , encontrou a casa vazia e tudo desarrumado,  vasculhou por debaixo das janelas e por detrás das portas, procurando por alguma lembrança vaga da nossa amizade, encontrou rabiscos de preces  e pedidos egoístas do qual eu não parava de cobra-lo,  ele sabe que as vezes confio nele, eu não confio é em mim, deixar as coisas de lado, ter medo de tudo e de não querer  ser a apenas um pedaço de carne e ossos nesse mundo infestado de leões famintos,  a nossa vida simples e desapegada é tudo; e isso tudo é uma estrada cheia de buracos da qual você não enxerga depois da curva, não consegue carregar muita coisa e não consegue chegar em primeiro, até entender que você nunca precisa estar em primeiro, não é uma corrida é apenas um caminho, uma meta digamos de passagem, você pode parar no hotel sujo no meio da madrugada e pedir um Bourbon, ouvir uma canção de Curtis Stiges tocada em um piano velho e empoeirado e lembrar de quem esta la fora, na rua do arco da Lapa ou nas escadarias coloridas de azulejos frios,  apenas um pedaço de carne e ossos nesse mundo infestado de leões famintos.


O sabor do ultimo gole de vinho

Dentro de tudo aquilo que deixamos guardado e não sucumbimos a vontade, deixando de lado o orgulho e o receio de expor nossa cara a tapas, falar sem rodeios , chegar atrasado a troco de uns minutos de paz e sossego, gozar de certas mancadas alheias, gozar na primeira, la dentro,  tatuar uma frase qualquer no corpo, perder a memoria por se embreagar de tanta vodka, fumar um baseado em um lugar  distante, dormir ao amanhecer do dia, acordar ao fim da noite, chorar  de madrugada, chorar de rir,  acelerar ate o motor  tremer, avançar o sinal,  morder ate sangrar, arranhar ate sentir a carne nos dedos, soltar as mãos quando descer do mais alto da montanha russa,  gritar ate lesionar a garganta, perder a voz,  sentir o limite gritar seu nome piscando os faróis no retrovisor. Acredito que valha muito a pena, mesmo se tudo for perecível, eles dizem que tudo acaba um dia, então me permito mais, como o sabor do fim do ultimo gole de vinho que senti na sua boca.


Dm7, Gm, C e F

Eu li nos jornais

E as crianças la na praça

Amassei as noticias  e rasguei meus vícios

Eu carreguei vidas junto ao meu colo

Senti os meus braços estalarem de frio

Escorei os meus ombros no muro e me afastei do vazio

Eu vi pela janela do carro

Senti a brisa sussurrar pelo o ouvido

Eu engatei a segunda terceira, sentido ao teu rumo

Eu falei em desespero

eu falei em desapego

eu falei em tanta coisa mas não disse nada

Nada daquilo que você relamente precisava ouvir de mim

Então vem, abra mais essa janela

Encoste aqui e venha ver os planetas

E  me prometa não

fugir daqui.


Bêbados e lascivos de tanto batom

Era uma fogueira junina em julho e eles fumavam maconha ao redor da árvore com uns chapéus de palha. Pesquei mais algumas cervejas antes que a ponta dos meus dedos congelassem, afastei os cães com os pés e disse bem baixinho no ouvido daquela desconhecida, enquanto alguns dançavam bêbados de tanto batom:

” vamos sair à francesa”
Agarrei-a pelo braço e liguei o Cadillac, peguei a estrada e parei o mais rapido que pude, senti seu queixo por entre minhas coxas e seus olhos me fitavam as vezes enquanto seus brincos me arranhavam, sua boca era quente e lúbrica feito um poema do Bukowski, podia enxergar os versos tristes e sádicos no movimento de sua língua e dentes, se engasgando naquele vem e vai  com seus próprios cabelos. Alguns solitários passavam e olhavam por sob o vidro embaçado, queria que alguém assistisse, a empurrava de quatro virada pro banco de trás enquanto assistia o transito balançar ao longe na cidade grande, balançava e balançava. Balançava junto ao movimento de sua cintura e sua nuca,  um poste se apagou e dava pra ver melhor a cor da sua bunda pelo reflexo do painel, transpiramos calor e amor de Nelson Rodrigues num frio abaixo de zero.  Ainda disse algumas coisas que não me lembro, dessas coisas que você só diz depois que goza na boca de alguém. Dormi ali mesmo e acordei sozinho na minha cama sem saber como.


Férias e hipocrisia em algum lugar do litoral nordestino

Check-in, as malas se trincavam abarrotadas de toda tralha e artefatos que nós não usaríamos, dava pra sentir de longe o reflexo do sol na calçada ardendo nos olhos com gosto de pérola, pessoas saturadas caminhando pra la e pra cá feito almas devotadas a um rumo não determinado e um voo atrasado. Ouvia-se uma criança do meu lado reclamando pro seu pai, chorando abusivo querendo usar o ipad, esfregar seus dedos engordurados e infectados de h1n1 em toda tela de touch cristalizada de ultima geração, isso é uma inverdade mas o fato é que ninguém se importa, “who cares about you?” ja diziam os caras do Misfits, quem se importa com as milhares de crianças de cor na orla da praia, cortando os dedos carrancudos nas folhas de coqueiro desidratadas? sentindo o arder na carne pra criar obras de artes minusculas, insetos verdes que ficarão pendurados na maçaneta da porta do hotel. Azulejos baratos pintados a mão, uma paisagem azul turquesa tão fria quanto a cama dessas crianças no inverno nordestino, quem se importa se o movimento dessa temporada esta baixo ou não? consumindo carne aos montes cuspindo ossos lambidos nos pés dos criados, alimentando os cães apenas para fazê-los brigar, quem se importa com  os corais e os recifes cortando seus pés? gotas de sangue se perdem no quebrar das ondas . Olhando daqui vendo um pedaço da lua aparecendo ainda no meio da tarde de um feriado qualquer, quem se importa se Neil Armstrong realmente chegou lá? quem se importa se ele se foi mudou a historia da tecnologia da humanidade mas nao acrescentou nada em minha vida comum no sudeste brasileiro? Anunciam nos auto falantes, ao redor da alfandega, vejo um casal correndo a abraçar uma senhora de idade, caminhando com dificuldade,  “atenção, ao entrar na zona de desembarque para voos internacionais, certifiquem-se de que não estão portando nenhuma planta ou animal estrangeiro não autorizado para esta área”  um cadeirante nao chega a tempo de entrar no elevador, e a ignorancia segue abençoando os mais nobres de espirito, falar de hipocrisia quando se esta no meio disso tudo é a maior de todas as hipocrisias, quem se importa? aperte os cintos, a poltrona é flutuante, quanto a você, faça suas preces pois eu prefiro saltar no ar, sentir o peito explodir em agua e sal me sentir vivo em alguns segundos em queda livre a 9000 pes de altitude. Parei de escrever é hora do serviço de bordo,  quem se importa afinal?